terça-feira, 10 de março de 2009

Decisão Tomada

       Primeiro respire. Solte todo o ar dos pulmões, esvazie o peito e o coração. Deixe o ar entrar. Há um ritmo natural. Perceba o seu próprio ritmo.
      Tendo aquietado o corpo e a mente, sentado ou de pé, sinta a vida pulsar em cada artéria, em cada veia. Nas teias da memória, procure o princípio do princípio, lá se encontra o vazio. E essa vastidão é repleta de vida, palpitação, pensamentos, silêncios, amores, desafetos, carinhos, e repulsão, tristezas, aflições, ansiedades e certezas.
      O maior presente é não ter medo. Se nada pertence ao ser, se somos um punhado de ossos, carnes, nervos, tendões, sangue, pleura, corações, sentidos, percepções, memórias, construções mantais, consciência e tudo o mais, somos a ligação disso tudo. Um organismo é feito de partes. Se uma parte falhar, todo o resto sofre.


Monja Coen - Viva Zen


quarta-feira, 4 de março de 2009

Ouvir o vento entre os pinheiros (2)


     O vento está em toda parte, mas não tem forma, nem voz. Para que possamos reconhecer, é necessário senti-lo soprando sobre nossa pele, movimentando plantas, árvores, nuvens ou uivando. Não podemos sequer ver o outono, escutá-lo ou pegá-lo com as mãos. Mas podemos perceber sua presença pelas folhas que mudam de cor, pelas espigas de milho que se tornam douradas. Podemos senti-lo nas vozes dos insetos que cantam à noite, ou nas chuvas que caem em silêncio. Podemos prová-lo nas maçãs ou caquis maduros.
     O céu e a terra são o corpo e a voz de Buda, manifestando-se por meio da forma e da voz de todas as coisas. ... Buda, na realidade, não tem nome nem forma. Justamente para isto vivem todas as coisas, das árvores a um fio de grama, de uma telha a uma pedrinha. Cada coisa nesta Terra e no Universo é a manifestação do corpo e da voz de Buda.
     ...
     Por mais que seja claro, em teoria, que somos uma manifestação da Natureza-Buda, se não praticamos os ensinamentos, não nos tornaremos verdadeiramente o caminho. E, no entanto, a Natureza-Buda se manifesta em nós independentemente de nosso conhecimento, consciência ou prática dos Preceitos. Exprime-se em nossa vida cotidiana. Por exemplo, quando tratamos com cuidado cada gota d'água ou cada planta, ainda que contra nossa vontade ou obrigados por outra pessoa; da mesma maneira, se vivemos uma vida ascética, se nos ocupamos de alguma coisa com devoção, mesmo nos trabalhos domésticos. 
     Uma gota de orvalho, onde quer que pouse - seja sobre uma bela flor ou sobre o esterco - brilha da mesma maneira, refletindo os raios de sol da manhã. É realmente uma grande alegria empenhar-se em práticas que brilham como o orvalho, em qualquer situação, para perceber a Natureza-Buda eternamente presente em todos nós.
     
Shundo Aoyama Rôshi - "Para uma pessoa bonita".

domingo, 1 de março de 2009

Ouvir o vento entre os pinheiros

    Yokoyama Rôshi... sempre tocava o apito de capim. ... Nunca me esquecerei de suas palavras, quando o visitei em Kaikoen: 
     "Quando disse a uma criança que se podia tocar o apito com qualquer folha, ela me perguntou se se podia também tocar com folhas de pinheiro. Eu respondi que as folhas de pinheiro, quem as toca é o vento. A voz do vento que assobia entre as folhas de pinheiro é o som mais belo que existe.
     Não é necessário que eu toque as folhas de pinheiro. O vento se encarrega disso. Que as toque eu ou o vento não tem importância, é a mesma coisa. Até quando uiva o vento, é sempre obra do Universo.
     Por menor que seja a voz, é sempre a voz do Universo. Até mesmo o silêncio tem seu timbre, ainda que não o possa-mos ouvir; e a montanha também tem sua voz particular, uma voz de montanha".
     Depois que o Rôshi se foi, no parque Kaikoen as árvores e as plantas, com o vento de Universo, continuam a tocar e cantar. Mas me pergunto se os visitantes atuais do parque conseguem perceber nesses sons a voz do Universo, a voz de Buda e o eco do apito de Yokoyama Rôshi.


Shundo Aoyama Rôshi - "Para uma pessoa bonita"